“Vive o instante que
passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal,
nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é
o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca
mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti,
impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o
sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta
as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o
silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes,
sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca
infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido
e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido
integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.”
— Vergílio Ferreira.
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