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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Surpresas da Vida - Parte I

Eram oitos horas da matina. Não tinha nada planejado, então resolvi sair a passear. Lá fora estava um clima fabulosamente gostoso. A brisa tocava-me o rosto como beijos suaves de uma modéstia dama. O céu tinha um azul límpido. Lembro-me que o ar cheirava a café, pão torrado e de rosas. Devagar, sem pressa de chegar, fui indo até a estação férrea. Sentei-me em um banco que estava aos fragmentos, mas ainda era resistente. Já tinha se passado o horário de pico, então eu pude aproveitar para admirar a paisagem. Não era lá muita coisa o que se tinha de ver, mas era o suficiente para fazer-me sentir vivo. A cada meia hora o trem passava. A cada meia hora, dezenas ou centenas de pessoas iam e vinham. Era engraçado ver aquela gente apressada, tantos rostos diferentes, aromas que iam de floral a amadeirado cítrico, passos que iam de leve, moderado a rápido. Mas o que mais me chamou atenção nesse dia foi um jovem que desceu do trem sem muita pressa. Um rosto diferente de todos que eu vira aquele dia. Possuía um semblante intrigado, como se não conhecesse o lugar. Não tinha cheiro, percebi isso assim que desceu do trem. Aliás, tinha seu aroma natural, mas não fazia uso de produtos aromáticos. Seus passos eram lentos, despreocupados. Olhou ao redor e seu olha bateu com o meu. Deu um sorriso disfarçado, baixou a cabeça e veio até mim. Perguntou-me, educadamente, se eu me incomodaria que ele sentasse-se junto a mim. Claro que não, respondi-o. Ficou em silêncio. Esperou que o trem partisse e que as pessoas deixassem o lugar para que pudesse dizer alguma coisa. Quando falou, sua voz suave perguntou-me: “Há quanto tempo eu morava nessa cidade?” “Há 82 anos, meu jovem.” “O senhor gosta daqui?” “Gosto o suficiente para nunca ter me mudado.” Dito isto, levantou-se e começou a andar em direção à cidade. Fiquei sem entender, mas no meio do caminho que dava acesso à rua principal ao centro, ele girou a meio passo e disse-me: “Obrigado. Acho que ficarei por aqui. Se o senhor, aos 82 anos, tão saudável, diz que a cidade é boa a ponto de nunca ter querido partir, creio que seja uma ótima cidade mesmo.” Confesso que fiquei confuso. Como poderia ele dizer que sou saudável, se nem ao menos meu nome sabe? Um velho como eu, a beira da morte, não teria opção a não ser ficar e morrer onde nasci. Que menino louco!

[CONTINUA]

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