Hoje acordei meio fora de
mim. Nada parecia fazer sentido. Era como se alguma coisa tivesse fugido do meu
corpo enquanto eu dormia noite passada. Não sei bem ao certo, é como se a alma
tivesse pesada, ou como se um buraco tivesse sido aberto em meu peito. Levantei,
lavei o rosto, tomei um café, tomei uma ducha, com uns dólares fui ao
supermercado. Percorri por todos os corredores em busca de algo que eu não
sabia o que era. Parei na seção de bebidas, e comecei a escolher. Uísque,
tequila, vodca. Vinho, aguardente, destilado. Fui colocando um pouco de cada
bebida num carrinho. Segui pra casa, sozinho. Liguei a TV, não tinha nada de
interessante passando. Uma monotonia como sempre. Liguei o som e coloquei as
melhores músicas para tocar. A cada música, um gole. Cada gole entrava rasgando
goela abaixo parecia que era a gota de um vulcão. Cada bebida, um sabor
diferente. Cada sabor diferente me remetia uma memória, um alguém. É engraçado
como as bebidas podem facilmente servir de poço de lembranças. Fui bebendo,
bebendo, bebendo... Troquei vários CD’s. Senti-me tonto, corri para o banheiro.
Vomitei. Puta merda, como eu vomitei! Parecia que eu ia me desintegrar
interiormente e sair do meu corpo pela boca. Mas era uma sensação boa sabe? Era
como se todo o amargo da minha vida tivesse sendo expulso dentro de mim, como
um demônio em um exorcismo, como um convidado indesejado em uma festa altamente
particular. E eu vomitei. Não sei por quanto tempo. Logo depois tomei mais uma
ducha, escorreguei e me sentei ao chão. Acho que desmaiei, pois quando acordei
estava escurecendo, e já não tinha mais água no chuveiro. Abri os olhos
lentamente, uma dor latejante atingia minha cabeça, como se eu tivesse batido
ela no chão quando desmaiei, ou peguei no sono, sei lá. Pus minha toalha e fui
ligar a água. Por sorte, foi só a caixa que secou. Sentia-me tonto ainda com a
dor de cabeça, tomei uns analgésicos, voltei para o banho. Senti um enjoo, uma
dor aguda no estômago, como se tivesse migrado de cima para baixo, da cabeça
para o estômago. Lembrei que não tinha comido nada o dia todo. Só bebi. Quando
saí do banho, sequei-me e me joguei na cama. Nu. Corpo nu. Alma nua. Relaxado.
Peguei no sono. Acordei duas da manhã com uma fome, e sentindo o corpo todo
quebrado. Ia pedir uma pizza, mas era domingo, e não fazem entrega depois da
meia noite nos fins de semana. Não tive opção a não ser esquentar o que tinha
na geladeira. Fiz meu prato, pus no micro-ondas. Comi. Matei a fome. Mesmo
assim, ainda estava nu. A gente sente uma coisa estranha quando percebe isso. O
peito parece derreter, o buraco fica maior. Na sala, olhei ao redor e vi as
garrafas abertas, o cheiro nauseabundo inundou minhas narinas me provocando ânsias
de vômito. Corri pro quarto, sentei-me e fiquei respirando o ar mais puro que
eu conseguia. Esqueci que eu estava numa das cidades mais poluentes que se
tinha notícia, oxigênio aqui é igual procurar agulha no palheiro. Mesmo assim,
consegui respirar e manter a sanidade. Joguei-me na cama de novo. Refleti. Percebi
que não tinha bebida no mundo, não tinha banho, não haveria nada, absolutamente
nada, que pudesse tapar ou pelo menos, reduzir a sensação de vazio, solidão,
nudez e abandono que eu sentia naquele momento. Não há nada que possa
substituir alguém que você foi capaz de amar com todo o seu ser e que de
repente, esvai de suas mãos como água que você pega na torneira e escorre pra o
ralo, sem destino, sem direção. Sem rumo certo. A verdade, meu caro, é que amor
de verdade, só se sente uma vez. O resto é só tapa buraco. E você jamais vai
encontrar alguém do tamanho do seu buraco.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentários ofensivos serão deletados.