“Eu olho pra sua
tatuagem e pro tamanho do seu braço e pros calos da sua mão e acho que vai dar
tudo certo. Encho-me de esperança e nada. Vem você e me trata tão bem. Estraga
tudo. Mania de ser bom moço, coisa chata. Eu nunca mais quero ouvir que você só
tem olhos pra mim, ok? E nem o quanto você é bom filho. Muito menos o quanto
você ama crianças. E trate de parar com essa mania horrível de largar seus
amigos quando eu ligo. Colabora, pô. Tá tão fácil me ganhar, basta fazer tudo
pra me perder. E lá vem ele dizer que meu cabelo sujo tem cheiro bom. E que já
que eu não liguei e não atendi, ele foi dormir. E que segurar minha mão já
basta. E que ele quer conhecer minha mãe. E que viajar sem mim é um final de
semana nulo. E que tudo bem se eu só quiser ficar lendo e não abrir a boca. Com
tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Fazer-me
feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a
maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei
fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar
todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode. Não dá, assim não dá.
Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é
que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora
neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada.
Veja se pode. Anos nos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um
desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô
agora. Que desgraça. Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito
pouco. Eu senti que a coisa estava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar
ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada
mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na
hora que eu estava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz
alguma coisa, homem! E era piada. Era piadinha. Ele fez que estava bravo. E
acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo.
Eita homem pra me beijar. Coisa chata. Minha mãe deveria me prender em casa, me
proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca
todas às vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me
suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele
ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex-namorada. Depois
de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos,
agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala
se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação
dessas? Como? Diz-me?
Durmo que é uma
maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar.
Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro
dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra
assoprar e dar beijinho.
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