Pesquisar este blog

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Armário - Caio Augusto Leite

Abri hoje o armário antigo, móvel paralisado no tempo, arca das memórias. Não sei por que tanto demorei a fazê-lo. Como se eu tivesse medo, mas de quê, Deus? Se ali estavam aquelas coisas que eram parte de mim. O meu passado não faz parte de mim? Pois então, o que temer. Temer a mim. Temer ao que já esqueci. Mas antes que a porta se abrisse a mão paralisou no puxador ornamentado. Qual era a dificuldade mesmo? Se tantas vezes puxei aquelas portas e gavetas, naturalmente. Pega lá, filho, aquela toalha bordada – vovó vem nos visitar, eu já sabia, só quando vovó vinha é que pegávamos a toalha bordada. Ou, pega meu estojo de maquiagem, aí eu sabia que a gente ia sair. Mas não sair pra qualquer lugar. Se mamãe ia mesmo se maquiar é por que era um dia especial. Mamãe não se pintava assim por qualquer motivo, tinha que ser data de grande relevo para a história, provavelmente ia ter foto e tudo. Então ela pegava o batom, o blush e aqueles outros utensílios que eu não sabia pra que servia ao certo. Mas ela sabia. E como! Então era isso, ela pegava o estojo e quando voltava a vê-la estava linda. Não que a tinta fosse uma forma de dar ao seu rosto uma cara outra, antes afinava os traços. Apurava a beleza que ficava oculta no dia a dia das horas no tanque, na máquina de lavar e de costura. Sei que cobrei demais, dei tão pouco. Todos nós demos. Ela sempre mereceu mais, mas ela sabia brilhar. Quando a foto se revelava víamos nós todos meio desajeitados, não ela. Ela era pose, luz & luxo. Linda em todos os retratos, era a sua íntima vitória. 

Ainda com a mão sobre o puxador o que se seguiu foi a voz de papai. Pega meus sapatos. Não. Os sapatos. Aquele outro. Aquele sapato de ir pro bar. O dia provavelmente era sábado. Sábado dia sagrado. Erguer a long neck no templo, ver futebol e falar de mulher. Eu ia junto, ficava entre o cheiro da bebida e a fumaça do cigarro. Confesso que até hoje cheiro de bar me dá um troço no peito, que cada um tem as madeleines que merece. Ficava equilibrado naquele banco comprido-ido. De lá via o mundo. A rua e os carros passando. Os bêbedos que o bar vomitava na rua sem amparo – quem não paga não leva, pega o caminho de casa e desce três, quatros pancadas na mulher e pede algo pra comer, a bandeja que treme e o sangue na boca engolia-se porque os tempos eram outros. Não papai. Papai pra sair das estatísticas nunca levantou um dedo contra minha mãe. Claro que pro desempenho e para a força dessa lembrança eu poderia ter mentido: que ele era alcoólatra e tudo o mais. Mas não. Eu bebia Coca-Cola numa garrafa de vidro e canudinho vermelho & branco listradinho vendo meu pai jogar bilhar. Taco e bola e bola na bola e buraco. Ele era muito bom naquilo. Tentou me ensinar, anos mais tarde, nunca consegui. Nunca tive a coordenação certa para colocar as coisas no tempo em que elas acontecem: buraco-taco-bola, era só assim que conseguia entender. E como não lembrar dos grandes amigos de papai? Beto, Zeca, Luís – fiquei sendo amigo deles também, eu era amado e não sabia. Lembro também das amigas de mamãe. Zefa, Cleonice, Laura. Elegantes e engraçadas. Mas nunca seriam como a maior de todas: minha mãe, maior que todas. Era infinito o mundo e a história não existia. Viveríamos bem e sempre. 

Também abria o armário para pegar o fio do videogame que era providencialmente guardado, pois eu e meu irmão não conseguíamos desligar aquilo. Vício total. Então de tanto implorarmos, de mentirmos que tínhamos feito os deveres de casa, mamãe liberava: pega logo, menino! Era ótimo, às vezes chamávamos alguns vizinhos e fazíamos competição. Mas também brincávamos na rua e também por isso abria o grande armário quando jogando aquele futebol no asfalto tirava o tampão do dedão e correndo, sangue pingando pegava a caixa dos primeiros socorros. Merthiolate nele, sentenciava mamãe. E ardia! Mas que saudade da dor. Quando é que perdi aquilo tudo? Sem querer mais lembrar tanta coisa finalmente lembrei de que tinha esquecido a mão sobre o puxador da porta. Abri. 

Os amigos de papai sumiram com o tempo e as de mamãe também. Talvez por que eles também sumiram. E sumiram os vizinhos, cresceram e sumiu também o mano. Na parte de dentro da porta havia um espelho e quando me vi assustei. Me assustei também por conseguir estar na altura da última divisória do armário, a mais alta. E nunca tinha visto. Eu era pequeno. Eu fui pequeno. Agora alto e velho como um carvalho milenar que já suportou os ventos e continua sem saber das folhas que perdeu. Pra onde foram? E o que era aquela caixa, nunca antes soubera dela. Caixa grande; um caixão. Peguei curioso. Olhei uma última vez para meu rosto rusguento, fechei o armário impaciente. As mãos tremendo, coloquei a grande caixa sobre a cama. Na tampa as iniciais de papai e mamãe. O que era aquilo? Dessa vez não demorei para abrir a memória, que memória não tinha nenhuma daquele objeto. Dentro da caixa ornada, dobrados, um terno, um vestido. Sabia por fotos o que era aquilo e não sabia que aquilo ainda existia. As roupas que mamãe e papai usaram no casamento. Há tantos anos. E ali estavam, denunciando e dizendo: nós existimos. Um dia nós existimos. Tirei-as da caixa, estendi-as sobre a cama e ali estavam mamãe e papai dizendo “Sim”. Verdade que não foram conservadas como devia. O vestido estava amarelo e o terno puído, vários furos. E vincados pelas dobras escondiam alguma coisa. Alguma coisa que ficou dobrada pra sempre, como uma palavra que eu não disse ou que não me disseram e que nunca mais diriam, ficou na dobra engasgada. Dobrei os joelhos e chorei como uma criança que nasce. Mas só “como”, que não era criança e não nascia, morreria dali a pouco, sei que sim e por isso chorava. Dobradas as pernas, também minhas dobras caladas. Senti mão em minhas costas. Era meu filho. Aquele filho que tanto trabalho me dava. Desdobrei as pernas. Pelo menos dessa falta eu tinha que me desvincular. Ele não entendeu nada, mas mesmo assim eu disse: Eu te amo, filho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários ofensivos serão deletados.